Escrever, escrever, escrever

O que fazíamos antes da internet? O que fazíamos antes das redes sociais? O que fazíamos antes dos jogos eletrônicos?

Bom, para que nasceu no pós-96, essas perguntas não fazem lá muito sentido. Eu, como pessoa de 1983, digo que fui a última geração a conviver com uma sociedade preponderantemente analógica até a entrada na adolescência.

Fui uma criança solitária que via na escola uma oportunidade de encontrar amigos e brincar. Por isso não  critico meus alunos quando me respondem que esse também é seu maior objetivo no cotidiano escolar.

Odiava férias. Férias para mim era motivo de solidão. Para lidar com ela, fazia duas coisas: via muita televisão e escrevia. Claro, brincava sozinha, pulava muros, fugia de casa para tentar encontrar algum amigo que morava longe. Só que na maior parte do tempo era tv – TV Cultura, especialmente – e escrita.

Diários e poemas adolescentes preenchiam meu tempo. Tinha o sonho de ser escritora. Aliás, já na minha alfabetização, a minha principal motivação era ser escritora – me inspirava na Rachel de Queiroz; não porque a lia, mas porque tinha o mesmo nome que o meu.

Lia, só que não muito. Cecília Meireles era minha preferência. Depois, os livros de Manuel Bandeira, Érico Veríssimo. Só que a escrita, para mim, era mais importante que a leitura. Era onde podia gritar, era minha arte acessível.

Acho muito bom que atualmente todo mundo  esteja escrevendo em abundância e acredito que se escreve hoje pelo mesmo motivo que eu menina escrevia ontem: solidãoA vantagem é que a tela do computador + redes sociais dá a impressão de que estamos sendo ouvidos e isso é uma senhora motivação.

De qualquer forma, acredito ser um erro quando professores não entendem/diferenciam a dinâmica dos alunos pós-96 de autoria na internet. Muita gente que trabalha com educação vê a interação dos alunos em redes sociais e em jogos como perda de tempo. Numa rápida pesquisa, achamos notícias como estas:

Jovens ‘apagam’ Facebook, Twitter e WhatsApp para passar no vestibular

“Abstinência Digital”: o primeiro passo para aprovação em vestibular, concursos públicos e até no Exame da Ordem, é apagar os perfis das redes sociais

Internet ajuda ou atrapalha os estudos?

Crianças e adolescentes anseiam se expressar. Eu quis ser escritora, eles querem ser blogueiros e youtubers. Há diferença? Professores, atenção, essa geração nos grita necessidade de se tornarem autores.

Claro, estudar para vestibulares e provas tradicionais não exigem autoria, exigem treinamento. Daí alunos são incentivados a se retirarem de seu ambiente de criação para conseguirem ser alguém. Aí se tornam esse alguém, mas para si mesmo não passam de um ninguém existencial.

Educação é um processo vivo, é um processo cultural, é um processo cultural. Não metam a fórceps a ideia de que educação de verdade acontece fora do cotidiano do aluno. Instrumentalize e ressignifique esse cotiano de escrita e autoria na internet. Use a seu favor a dinâmica da vida, não tente impor uma educação alienada em nome de aprovações em provas. As aprovações acontecem também quando você lida com potenciais já existentes dos alunos.

Professora Invertida

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s