Escola privada, qualidade?

Recentemente tomei um pequeno susto. Não tinha ideia do quanto as escolas privadas pagam mal os profissionais de educação. A maior parte dos anúncios de vagas são de salários até R$ 2.500,00. Apenas a título de comparação, a Lei do Piso Salarial dos Professores indica que as redes públicas precisam pagar a partir de R$ 2.135,64.

Esse baixo salário reflete a obviedade da iniciativa privada: é preciso gerar lucro.

Muitas das escolas privadas em São Paulo vendem, na verdade, espaço e convivência com alunos economicamente selecionados. É a cara da escola pública do passado, quando educação não era direito de todos.

A escola privada em São Paulo, e creio que no Brasil todo aconteça o mesmo,  oferece a experiência de não estar na escola pública. Não conviver com quem financeiramente não pode pagar uma escola privada e estar num prédio de novela.

Há um duplo movimento nisso: a desculpa para não lutar pela educação pública pois, para parte da classe média, a iniciativa privada é simbolo também de melhor qualidade (em qualquer serviço) e a vontade de que seus filhos não convivam com pessoas de baixa renda.

As duas são reflexos ideológicos do neoliberalismo. Eu posso pagar, portanto terei o melhor. Eu posso pagar, portanto não vou conviver com quem não é melhor do que eu. As duas são falácias.

Em primeiro lugar, o salário dos professores em rede privada não atrai melhores profissionais. A escola pode ter um prédio lindo, ter piscina, ter um foguete que vai para a lua, mas muitas delas oferecem baixos salários o que leva a não ter recursos humanos ou equipe preparada para lidar com essa infraestrutura. A solução encontrada por essas empresas-escolas é aderir à métodos apostilados de redes que vendem aprovação em vestibulares. O professor, desta forma, é retirado da função de mediador da educação do aluno e passa a ser o que a empresa, a imprensa e os vestibulares pensam que é o professor: um reprodutor de conteúdos. Claro, professores assim são facilmente substituídos por aulas virtuais e tenho certeza que esse será o modelo chave da educação fundamental e de nível médio para os próximos anos. Um artigo bacana que reflete sobre o modelo de ‘qualidade’ das escolas privadas é este aqui, recomendo a leitura.

Em segundo lugar, a escola privada é o lugar que dialoga com shopping centers e condomínios fechados. Um não-lugar. Repele a convivência entre diferentes camadas sociais e constrói o muro de medo que marca nossa cidade.

Estar na escola pública é estar exposto às pessoas que aparecem nos programas policiais – e todo o racismo e preconceito que isto reflete. A escola pública é o lugar do rolezinho, do funk, do preto e do pobre, e a família tradicional brasileira não quer que seus filhos vejam o que ela não quer que exista.

Professora Invertida

Escravidão e o apagamento das origens

Peças publicitárias podem ser utilizadas em sala de aula. Na verdade, devem. Acredito que isso deveria ser feito desde cedo, já que os signos da publicidade inundam nossa vida desde o momento que passamos a entender o mundo.

Neste post vou discutir uma peça que ano passado causou o que a imprensa chama de polêmica mas eu chamo de debate.

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Para quem não acompanhou, segue o link da reportagem da Revista Exame sobre o tema.

Campanha da Justiça sobre xenofobia causa revolta nas redes

A questão fundamental desta peça da campanha seria a confusão entre o processo de imigração e o tráfico negreiro. Ora, não precisa ser um profundo conhecedor da história do Brasil para saber que a escravidão por aqui é fundamentada no sequestro de pessoas da África. Não é imigração. A imigração pressupõe a vontade, liberdade de escolha.

Para além disso, existe outra questão muito sensível que a campanha fez questão de embaralhar: o apagamento das origens daqueles que foram escravizados. 

Veja bem, eu sou uma mulher branca, moradora de São Paulo. Descendo de portugueses, italianos e espanhóis. Todos vieram na onda da imigração que ocorreu no Brasil entre os anos de 1870 e 1930, e que marcou a substituição da mão de obra negra pela mão de obra branca. Pessoas em busca de oportunidades pegaram suas coisas, entraram num navio e vieram. Se eu quisesse saber a data da sua chegada, com quem vieram e mesmo o nome do navio que os transportou, bastaria eu ir até o Museu da Imigração e solicitar uma certidão. Meus avós e bisavós vieram com seus nomes, documentos e história. Puderam conviver com sua família, filhos, primos e comunidade. Puderam reproduzir sua cultura mesmo estando longe do país de origem. Tiveram seus ritos religiosos respeitados. Foram trabalhadores rurais e depois urbanos mal pagos e explorados, mas a memória de suas origens nunca foi uma questão.

Este relato da minha origem quase nenhum descendente dos seres humanos que foram escravizados no Brasil pode estabelecer. Não faz sentido a campanha do Ministério da Justiça devido a isso.

Sabe, não foi algo que aprendi através da pseudo-polêmica da campanha, foi algo que me dei conta ao conversar com uma colega de trabalho e também amiga, a Professora Janaina Monteiro. Num papo informal acabei falando algo sobre como é fácil tirar essas certidões que podemos tirar no Museu da Imigração e ela simplesmente (e ironicamente) riu. Esse riso dela me fez  perceber o quão pode ser difícil para descendentes de negros escravizados conhecer suas origens ou se sentir representado nessa construção do imaginário da imigração no Brasil. Por isso, cada vez que trato do tema em minhas aulas, essa reflexão entra obrigatoriamente na discussão com os alunos.

Publicitários não são historiadores. Mas abordar o tema das origens étnicas dos escravos brasileiros deveria ter sido alvo de pesquisa e reflexão antes de se aprovar qualquer coisa.

 

Professora Invertida