Proatividade é para quem pode e não para quem quer

Eu sempre rio muito alto quando aparece o discurso feito de que devemos ser inovadores e proativos. Isso porque a maior parte dos gestores são, na verdade, chefes, como chefes, exigem obediência e não pensamento, ação, inovação.

Na escola, esta relação se reproduz nos diversos diretores-chefes que se preocupam apenas com ordem, nos seus dois sentidos possíveis:

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1. relação inteligível estabelecida entre uma pluralidade de elementos; organização, estrutura.

2. série de pessoas ou coisas que se sucedem ou se dispõem umas após as outras; sucessão, fileira, renque.

Esses diretores-chefes querem alunos quietos, imóveis, sentados em fileira como plantas que usam mochila. Esses mesmo diretores-chefes pensam o papel do professor como o de cuidar do aluno-planta dentro da sala, fazendo o possível para mantê-los enfileirados, quietos e em ordem.

O diretor-chefe, claro, se vê envolto a uma realidade que não obedece à ordem alguma, pois – e fico feliz com issmarcelao – as relações entre humanos são mais caóticas do que essa botânica irreal da sala de aula ideal.

Acredito que não haja caminho possível para educação enquanto a lógica do chefe continuar a se sobrepor à vontade de construir uma escola verdadeiramente democrática. Inovação, proatividade, etc. são consequência de profissionais em educação motivados, com voz e com o sentimento de que são sim parte integrante da escola. E, claro, alunos – estudantes!- motivados, compromissados com sua formação e atuantes nas suas escolas apenas existem quando não se espera deles um comportamento, ahn, floral. 😉

Professora Invertida

 

Pobrezinha, estudou tanto…

Não sei quanto a vocês, mas há anos eu escuto uma ladainha muito chata. Essa ladainha me diz, repete e grita para mim que apesar dos meus anos de estudo, apesar da minha ‘inteligência’, eu ganho mal, continuo ganhando mal, não tenho nada, enquanto que pessoas que não estudaram, nossa, estão rykhas, indo para Miami, comprando apartamentos construídos pela Cyrela. Não ouço isso apenas de familiares, também ouço isso de colegas de trabalho – mesmo antes de me tornar professora.

Olha, eu acredito que esta seja uma questão mais complexa do que aparenta e não se relaciona apenas com a minhaunivesitarios-1440x764_c jornada pessoal de formação intelectual, mas com valores éticos, demanda mercado de trabalho e educação como produto de venda.

Um exemplo legal: Tem um pedreiro, o seu João, que fez alguns serviços na casa da minha mãe. Ele, sem curso superior, facilmente ganha muito, mas muito mais do que eu, que sou professora. Isso é necessariamente ruim? Não! Aliás, em países do norte da Europa, como Noruega e Suécia, isso é uma realidade há tempos: lixeiros, pedreiros, marceneiros ganham muito bem, possuem salários mais do que dignos. Agora, o massa do seu João é que agora, perto dos 50 anos, está no segundo ano de engenharia numa faculdade privada. Mesmo ganhando bem, ele vai matar duas coisas: realizar o sonho de ter curso superior e poder liderar o projeto das obras como engenheiro responsável, ou seja, possivelmente – como profissional qualificado que ele já é – irá aumentar ainda mais a sua renda.

Agora veja a carreira docente. A não ser que você lecione em escolas de elite ou tenha muitos anos de carreira na escola pública (mais de 10 anos, pelo menos), mesmo com cursos, pós-graduações, línguas estrangeiras, descobertas científicas, prêmios nobel, etc.. o seu salário não irá ser maior do que a de um engenheiro em início de carreira.

A injustiça não está em um pedreiro como o seu João ganhar mais do que uma professora como eu. A injustiça está na decisão política de se desvalorizar a carreira docente que é, no fundo, a desvalorização da educação como projeto político de formação das gerações que irão construir o mundo dos filhos e netos meus e do Seu João.

 Professora Invertida

Gabaritar a prova de Matemática no ENEM: O que temos a ver com isso?

Há poucos dias saíram os resultados da prova do ENEM e, claro, o tipo de cobertura jornalística que se faz sobre o ‘evento’ diz muito sobre como se encara educação no Brasil.

Durante a aplicação da prova o grande assunto foi a prova de redação e seu tema polêmico: A persistência da violência contra a mulher no Brasil. Tema pertinente, necessário e acertado. A discussão no mesmo dia da aplicação da prova e nas semanas seguintes foi extensa e frutífera, dialogando com uma das questões mais graves que enfrentamos no nosso país. Entretanto, quando as notas finais saíram, a pauta da imprensa mudou:

Confira as dicas de um dos candidatos que gabaritaram matemática no Enem

Enem: 13 estudantes gabaritaram matemática e tiraram mais de mil pontos

Enem 2015, 13 candidatos gabaritaram a prova de matemática e 53 mil zeraram a redação

‘Não me considero nerd’, diz aluno nota 1.008,3 em matemática no Enem

Aluno de SP tira a mesma nota recorde de piauiense no Enem

13 seres iluminados gabaritaram a prova de matemática. Fiz uma pesquisa rápida apenas na imprensa escrita mas se você zapeasse sua televisão durante a última semana e assistisse programas populares – daqueles que falam de violência e trânsito – veria tranquilamente uma entrevista com um desses 13 seres.

Veja, ir bem numa prova como o ENEM exige conhecimento do conteúdo somada a outra coisa que pouco se aborda nessas reportagens: treino. Não é fazer qualquer exercício, é ter acesso a exercícios com a complexidade exigida no ENEM e nos vestibulares em geral. Esse acesso normalmente é dado em escolas privadas de ponta, cursinhos pré-vestibulares ou – nos casos mais raros – numa família que tenha cultura de estudo.

Nas entrevistas de dois que gabaritaram a prova de matemática, é dito que os pais são professores, a avó é física ou algo do gênero. Bom, não tiro o mérito de estudo e interesse dos garotos, mas eles nasceram com o ‘bilhete premiado’ do vestibular. Coisa para poucos, claro.

Para além, desvendando a lenda urbana da matemática impossível, não há segredo de que o ensino de matemática por essas bandas é um nó. Em escolas públicas e particulares é difícil achar quem não reafirmem a lenda entre pais, alunos, professores e gestores.

O nó, a meu ver, tem muito com um problema de falta de ensino significativo do conteúdo de matemática. Fazer contas e achar resultados? A matemática não é isso. Pode ser um puzzle muito mais interessante, pode ser algo ligado à nossa experiência com a natureza, … Bom, não sou professora de matemática, minhas possibilidades pedagógicas para sugestões não são muitas, mas é algo que acredito ser de urgente solução (política).

Quando a base de sentido do ensino de um conteúdo não é formado, os anos escolares passam e a matemática se torna um conglomerados de signos indecifráveis, que apenas os ‘escolhidos’ podem ter acesso. É uma vergonha, entender matemática se tornou privilégio e há urgência de que isso se reverta.

 

Professora Invertida

 

Na reunião de pais dizendo os que os pais não querem ouvir

Sou professora de história da rede pública municipal de São Paulo. Atuo há um pouco mais de 5 anos e, por conta de variáveis inerentes à carreira, nem sempre tenho aulas atribuídas. Isso quer dizer que na maior parte das vezes ocupo o cargo de professora substituta. Quando não substituo aulas, acompanho o trabalho dos meus colegas. Claro, na maior parte das vezes estou com meu colega de área, mas também gosto de voar nas aulas de colegas de outras disciplinas. Como consequência disso, ando adquirindo profundo conhecimento entre a relação de conteúdos, dificuldades dos alunos, violência escolar e trabalho de recuperação paralela, entre outros.

Uma coisa bacana que ocorre onde trabalho é que professor que não possui aulas atribuídas não é tratado como professor de segunda categoria. Tenho voz nas reuniões de conselho de escola, conselho de classe e muitas vezes conduzi sozinha reunião com os pais. Isto denota respeito ao profissional e entendimento que qualquer professor precisa conhecer as turmas e ser capaz de discutir os casos com os responsáveis.

Vou falar de uma das reuniões de pais (avós, irmãos, vizinhos, tios ou quem quer que seja o adulto responsável pelo estudante) que conduzi.

Normalmente meus colegas iniciam reuniões com uma pauta inicial composta, claro, por assuntos burocráticos. No meio dessa pauta, dizemos a todos os pais como a sala se porta. Normalmente essa é a hora da bronca coletiva: alunos não estudam; conversam demais; bagunçam; não saem do celular; etc..

É claro que eu eventualmente dou a minha bronca…. só que também procuro trazer minha reflexão de professora de rede pública que, um dia, também foi aluna de rede pública. Da mesma rede, aliás. E é aí que o bicho pega.

Sabe, fui uma aluna falante, fui mandada à diretoria, tive amigos, fiz bagunça. Gostava de estudar, adorava a tv cultura, jogar xadrez e ler. Muitos que me conheceram quando criança – inclusive pessoas que estudaram comigo no ensino fundamental – falavam que eu era inteligente, mais inteligente que eles. Eu nunca achei isso. Sempre pude pontuar diversos colegas que era geniais e que acabaram não se encontrando nos estudos.

Qual foi a grande diferença? Por que essa peja de inteligente me incomodava tanto? Por que o discurso meritocrático não me convenceu já naquele tempo?

Bom, são perguntas de múltiplas respostas. Vou expor agora uma delas. E essa resposta eu compartilhei com os pais dos meus alunos e, confesso, esses pais não gostaram muito do que ouviram.

O meu gostar de estudar foi muito influenciado por ter visto meus pais retomarem os estudos. Era criança e algumas vezes fui à escola dos meus pais. Hoje é EJA, na época era Supletivo mesmo. Meu pai concluiu o ensino fundamental e médio, minha mãe o ensino médio.

Eu os via em grupos de estudo, lendo no ônibus, fazendo exercícios em casa.

Meus pais nunca me incentivaram a estudar – eles tinham o discurso que isso era minha obrigação, rs -, nunca conferiram meu caderno para ver se eu tinha copiado tudo. Mas ver os meus pais estudando me levou automaticamente a considerar o estudo importante.

E por que você acha que os pais dos meus alunos não gostaram deste meu relato?

Eu, por exemplo, chuto… Acabei com a lenda de que gostar de estudar é algo para escolhidos, privilegiados, pessoas inteligentes, bissextas, exceções. Gostar de estudar tem mais a ver, sim, com interesse, com cultura, com hábito, com necessidade, com cotidiano.

Professora Invertida