Negatividades de uma professorinha em início de ano letivo

Penúltimo dia de férias. Vejo diversos sites da onda empreendedora fazendo textos motivacionais. Sites na área de educação (empreendedora) dando dicas de como começar o ano com inovações.

O que eu penso sobre isso? Apenas espero mais do mesmo.

Sei que isso soa negativo, sei bem. Mas como este blog se propôs a ser reflexivo, então bora lá:

No mundo ideal, o melhor momento para propor mudanças no ano letivo seriam as reuniões pedagógicasde início de ano. No entanto, reuniões de início de ano são o equivalente a coletânea de avisos. Qualquer proposta inovadora, em escolas públicas e privadas, que não vislumbre avaliações quantitativas em detrimento de qualitativas, são inviabilizadas. Dificilmente te falarão “não” para algo que você acredita que possa funcionar, mas geralmente vão restringir espaços, restringir horários, restringir materiais.

Sim, estou negativa.

Ah, mas olha… se você mudar de escola vai ver que…

Vou ver que educação de qualidade não é prioridade. Que professor pensante é o que arruma confusão. Que você vive melhor – e saudável – se simplesmente seguir o fluxo.

Ah, mas as coisas estão mudando, logo mais, esse modelo de escola não vai mais existir…

Tomara. Mas o meu tempo é o agora. E no meu tempo (tempo de intolerâncias que eu achava – sinceramente – ser coisa do passado), é esperto quem obedece.

Minha motivação?Escrever é minha confissão, meu ofício de alma. Desde quando iniciei minha vida profissional como técnica de telecomunicações, depois bancária e agora professora, escrevo, reflito. As relações de trabalho estavam colocadas – límpidas – na minha frente: relações de poder, alienação do trabalho, indicações, meritocracia by heranças, etc.. Mas mesmo a escrita como meio de apropriação de ideias, minha reflexão e confissão, perdeu o sentido. Faz meses que nem atualizo este blog porque faz meses que me abstive de pensar educação, pensar o meu trabalho, pensar a escola. Talvez seja o momento de voltar a brigar pelas ideias na escola? Início de ano, vida nova, novos colegas, novos alunos? As estruturas são as mesmas e, como costumo dizer, sou apenas uma professorinha.

Nas escolhas que fazemos na vida, o que tiro deste 2016, é que preciso sobreviver. Você, colega de profissão, na desistência ou na luta – salve,Bartleby – sobreviva.

Em 2016 eu morri um pouco, mas este ano – amigo, Belchior – eu não morro mais. 😉

Sobreviva.

socorro.jpg

 

 

Escrever, escrever, escrever

O que fazíamos antes da internet? O que fazíamos antes das redes sociais? O que fazíamos antes dos jogos eletrônicos?

Bom, para que nasceu no pós-96, essas perguntas não fazem lá muito sentido. Eu, como pessoa de 1983, digo que fui a última geração a conviver com uma sociedade preponderantemente analógica até a entrada na adolescência.

Fui uma criança solitária que via na escola uma oportunidade de encontrar amigos e brincar. Por isso não  critico meus alunos quando me respondem que esse também é seu maior objetivo no cotidiano escolar.

Odiava férias. Férias para mim era motivo de solidão. Para lidar com ela, fazia duas coisas: via muita televisão e escrevia. Claro, brincava sozinha, pulava muros, fugia de casa para tentar encontrar algum amigo que morava longe. Só que na maior parte do tempo era tv – TV Cultura, especialmente – e escrita.

Diários e poemas adolescentes preenchiam meu tempo. Tinha o sonho de ser escritora. Aliás, já na minha alfabetização, a minha principal motivação era ser escritora – me inspirava na Rachel de Queiroz; não porque a lia, mas porque tinha o mesmo nome que o meu.

Lia, só que não muito. Cecília Meireles era minha preferência. Depois, os livros de Manuel Bandeira, Érico Veríssimo. Só que a escrita, para mim, era mais importante que a leitura. Era onde podia gritar, era minha arte acessível.

Acho muito bom que atualmente todo mundo  esteja escrevendo em abundância e acredito que se escreve hoje pelo mesmo motivo que eu menina escrevia ontem: solidãoA vantagem é que a tela do computador + redes sociais dá a impressão de que estamos sendo ouvidos e isso é uma senhora motivação.

De qualquer forma, acredito ser um erro quando professores não entendem/diferenciam a dinâmica dos alunos pós-96 de autoria na internet. Muita gente que trabalha com educação vê a interação dos alunos em redes sociais e em jogos como perda de tempo. Numa rápida pesquisa, achamos notícias como estas:

Jovens ‘apagam’ Facebook, Twitter e WhatsApp para passar no vestibular

“Abstinência Digital”: o primeiro passo para aprovação em vestibular, concursos públicos e até no Exame da Ordem, é apagar os perfis das redes sociais

Internet ajuda ou atrapalha os estudos?

Crianças e adolescentes anseiam se expressar. Eu quis ser escritora, eles querem ser blogueiros e youtubers. Há diferença? Professores, atenção, essa geração nos grita necessidade de se tornarem autores.

Claro, estudar para vestibulares e provas tradicionais não exigem autoria, exigem treinamento. Daí alunos são incentivados a se retirarem de seu ambiente de criação para conseguirem ser alguém. Aí se tornam esse alguém, mas para si mesmo não passam de um ninguém existencial.

Educação é um processo vivo, é um processo cultural, é um processo cultural. Não metam a fórceps a ideia de que educação de verdade acontece fora do cotidiano do aluno. Instrumentalize e ressignifique esse cotiano de escrita e autoria na internet. Use a seu favor a dinâmica da vida, não tente impor uma educação alienada em nome de aprovações em provas. As aprovações acontecem também quando você lida com potenciais já existentes dos alunos.

Professora Invertida

 

 

DICA DA SEMANA: CAPACITISMO É CRIME DE ÓDIO

Os trabalhadores das escolas sofrem com uma imensidão de doenças e transtornos e é importante refletir e comunicar este tipo de coisa.

Capacitismo é crime de ódio é uma página do facebook administrada por pessoas com diversas deficiências. Lá vemos boas reflexões e relatos de como se dá o preconceito com pessoas doentes e com problemas de saúde tanto no mercado de trabalho quanto nos ambientes de estudo.

Recomendo muitíssimo a visita, há muito o que conhecer e se esclarecer sobre o assunto.

12289504_973028206094503_2991982157410767845_n.jpg

DICA DA SEMANA: Mila Correa

 

Conheci mila.jpga Mila através do blog Lugar de Mulher, gosto demais dos textos dela lá. Mila também mantém um blog pessoal e uma boníssima @ no twitter.

Mila é cadeirante e gosto muito de seus relatos sobre como deficientes físicos são tratados – e excluídos – socialmente: desde perrengues nas hora de jantar fora até o usufruto de sua sexualidade.

Vale muito acompanhar e aprender com essa moça.

 

Eu queria que minha professora soubesse…

Reportagem fala de uma professora que deu voz aos alunos, a oportunidade deles dizerem quem eles são. Ficamos sabendo porque a professora em questão tirou fotos dos bilhetes e publicou na sua conta do twitter.

wish

Eu queria que minha professora soubesse que eu não tenho amigo para brincar comigo.

Conhecer o aluno e suas necessidades está além de saber o que ele consegue aprender, sua velocidade, seu rendimento. Lidamos com pessoas, o processo de aprendizagem é um processo de escuta e vida em comum. Não dá para o professor ir para a escola, dar a aula e voltar pra casa. Somos seres humanos e lidamos com seres humanos providos de histórias, vivências.

Eu não tenho nenhuma foto aqui, porque sempre devolvo aos alunos seus trabalhos, mas tenho uma estratégia para este tipo de escuta.

Sempre na primeira vez que entro numa sala, faço a dinâmica das apresentações. Primeiro digo quem sou, quantos anos tenho, onde me formei e porque escolhi ser professora de História. Depois peço para cada aluno se apresentar, dizer nome, idade e a matéria que mais gosta.

No segundo momento, digo a eles que quero que me escrevam uma carta. Nesta carta eles devem escrever o que gostariam que eu soubesse deles.

É massa, muitas vezes eles dizem coisas simples como não gosto de jiló, odeio meu irmão ou odeio história. Só que, como aconteceu com minha colega de profissão da Inglaterra, muitos abrem situações que nos fazem entender melhor quem é aquela pessoa que está lá no papel de aluno: eu só como quando estou na escola, não gosto de sair da escola porque em casa não tenho nada para fazer, meu pai está preso, minha família toda está na Bolívia e sinto falta deles, meu pai está voltando do Japão e estou feliz.  

De cabeça me lembro desses relatos. Acontece que também tenho a prática de responder a carta. No próprio papel, no verso. De maneira informal e sem notas. Então eles ficam sabendo que eu gosto de jiló refogado, que na idade deles eu também me dava mal com minhas irmãs, que eu sempre gostei de estudar História. Também ficam sabendo que eu sei o que é não morar perto de equipamentos de lazer quando se é criança e a solidão que isto pode causar, que fico feliz que o pai do aluno está voltando de uma longa jornada fora do país, que sinto pela tristeza de ter um pai preso, que sinto pela saudade de quem tem suas origens fora do Brasil e por isso às vezes se sentem deslocados e que vou ajudar de alguma forma a uma criança que tem acesso à alimentação regular apenas na escola.

Eu escrevo para eles, respondo, falo também das minhas experiências, deixo claro que os entendo. E se não for capaz de entender, estarei ao lado deles.

Não se trata de algo bonito, cheio de arco-íris, de alguém iluminado, madre teresa de calcutá… É trabalho consciente. Ser professor é muito além do que transmitir conteúdos, é também se importar.

 

Professora Invertida

 

Pobrezinha, estudou tanto…

Não sei quanto a vocês, mas há anos eu escuto uma ladainha muito chata. Essa ladainha me diz, repete e grita para mim que apesar dos meus anos de estudo, apesar da minha ‘inteligência’, eu ganho mal, continuo ganhando mal, não tenho nada, enquanto que pessoas que não estudaram, nossa, estão rykhas, indo para Miami, comprando apartamentos construídos pela Cyrela. Não ouço isso apenas de familiares, também ouço isso de colegas de trabalho – mesmo antes de me tornar professora.

Olha, eu acredito que esta seja uma questão mais complexa do que aparenta e não se relaciona apenas com a minhaunivesitarios-1440x764_c jornada pessoal de formação intelectual, mas com valores éticos, demanda mercado de trabalho e educação como produto de venda.

Um exemplo legal: Tem um pedreiro, o seu João, que fez alguns serviços na casa da minha mãe. Ele, sem curso superior, facilmente ganha muito, mas muito mais do que eu, que sou professora. Isso é necessariamente ruim? Não! Aliás, em países do norte da Europa, como Noruega e Suécia, isso é uma realidade há tempos: lixeiros, pedreiros, marceneiros ganham muito bem, possuem salários mais do que dignos. Agora, o massa do seu João é que agora, perto dos 50 anos, está no segundo ano de engenharia numa faculdade privada. Mesmo ganhando bem, ele vai matar duas coisas: realizar o sonho de ter curso superior e poder liderar o projeto das obras como engenheiro responsável, ou seja, possivelmente – como profissional qualificado que ele já é – irá aumentar ainda mais a sua renda.

Agora veja a carreira docente. A não ser que você lecione em escolas de elite ou tenha muitos anos de carreira na escola pública (mais de 10 anos, pelo menos), mesmo com cursos, pós-graduações, línguas estrangeiras, descobertas científicas, prêmios nobel, etc.. o seu salário não irá ser maior do que a de um engenheiro em início de carreira.

A injustiça não está em um pedreiro como o seu João ganhar mais do que uma professora como eu. A injustiça está na decisão política de se desvalorizar a carreira docente que é, no fundo, a desvalorização da educação como projeto político de formação das gerações que irão construir o mundo dos filhos e netos meus e do Seu João.

 Professora Invertida