O terror do aluno ao ser avaliado

Esta fotinho que uma aluna compartilhou no facebook me chamou muito a atenção hoje.

balãozihos
fonte: Balãozinhos

E, sinceramente, eu sou solidária a esses pânico dos alunos. Ser avaliado é uma coisa horrível porque dialoga com uma coisa que não deveria ter relação com isso, que é ser aceito. Isso porque, na escola, infelizmente, a questão da avaliação se relaciona com a ideia de prova,  com nota 10, com ser o melhor da turma. É preciso se destacar, ser o melhor para que os professores gostem de mim, para que meus pais tenham orgulho de mim, para que eu seja a pessoa vencedora e blá blá blá.

Na verdade, avaliação de aprendizagem deveria ter mais a ver com processos de aprendizagem, objetivos traçados em conjunto por professores e alunos, temas amplos e abordagens feitas de acordo com as múltiplas capacidades que cada indivíduo tem. Mas parece que pensar ou querer trabalhar assim é algo que pode até ser bem aceito em discurso, mas pouco colocado em prática. No dia a dia, ouve-se de colegas professores, pais, gestores que isso é utopia, irreal, não corresponde a expectativas dos pais em relação à aprendizagem que visa vestibulares. Sei de escolas particulares com provas – não avaliações – diárias, que servem tanto para treinar alunos para vestibulares, como metê-los em crises de pânico e úlcera antes dos 12 anos.

Avaliar é necessário e fundamental, acredito que deva ser orgânico, cotidiano e com critérios abertos e claros para alunos e pais. Eu, como professora, passo avaliações de conteúdo sim, mas sempre com consulta a livros e a colegas. Isso é uma estratégia para tranquilizar os alunos, pois saberão que eles não se prejudicarão por ter branco. Isso também é uma estratégia de ensiná-los a pesquisar, questionar. Claro, elaboro questões que os obriguem a pensar, e não a caçar respostas no livro didático, caderno, google. Não ligo para o risco de cópias pelo simples motivo de que os alunos sabem que eu leio e comento todas a avaliações e se perceber uma cópia do aluno, irei chamá-lo. E aluno odeia bronca. Mesmo assim, também não me perturbo se algum aluno quiser me passar a perna, pois minha avaliação não é apenas de conteúdo. Minha avaliação é tem o objetivo de saber como esse aluno evolui intelectualmente. A avaliação de conteúdo é apenas uma variável dentro de um processo complexo e não captado apenas num papel e numa nota de 0 a 10.

Procuro organizar a sala em U. Acredito que esta disposição faz com que o trabalho em equipe melhore, nos olhemos diretamente e alunos que naturalmente são de se esconder, fiquem melhor dispostos e possam socializar com colegas e participar mais diretamente da aula. Com a sala organizada dessa maneira, percebi também que os alunos ficam mais atentos à sujeira da sala de aula, ou seja, desenvolvem a capacidade de manter o ambiente coletivo em ordem e limpo, já que ele é de responsabilidade de todos.sala_treinamentos_espac3a7o_fit_eventos_50m2_u_com_mesas

A questão é que quando chego em sala, eles estão enfileirados, pois outros professores preferem o modelo tradicional. Tive muitos problemas relacionados ao tempo que os alunos demoravam para se arrumar. São impressionantes as dificuldades que encontramos com os alunos ao terem como atribuição organizar o próprio espaço onde estão! Sou professora de História, teoricamente não tenho que ensinar nada em relação a este aspecto de convivência física. Isso não costuma cair  no vestibular. Mas avalio, avalio sim, como os alunos evoluíram na sua capacidade de se organizar no espaço para fazer essa sala em U. Algo que demorava cerca de 15 minutos nas primeiras aulas, hoje não dura mais do que três, quatro minutos. Não é treinamento, como pode parecer. É olhar e movimento.

Respeito, solidariedade, trabalho em equipe: fico de olho nessas coisas. Quando explico uma tarefa e percebo que há muitas dúvidas, peço que um aluno se voluntarie a explicar – com suas palavras – a comanda da atividade ou o conteúdo que os colegas têm dúvidas. Muitíssimas vezes essa explicação é suficiente para que não haja mais perguntas repetidas, pois as escolhas das palavras do aluno que explica talvez sejam mais adequadas do que as minhas, como professora.

Pontualidade e compromisso: sim, sou caxias :P. Atrasos para entrar em sala de aula não justificados,  entrega de trabalhos e tarefas de casa fora de prazo, desculpa de que não fez tarefa porque faltou na aula, etc.. Sou rígida nisso, talvez seja a coisa que mais sou rígida, porque percebi – ao menos na escola pública – uma imensa falta de compromisso com tarefas extra-sala. É minha tentativa de colocar importância no estudo fora da escola. Talvez algo conservador e disciplinador, sim. Talvez possa até reavaliar essa minha postura, mas por enquanto é uma cobrança real e acredito, ainda, necessária. Não porque seja algo que vai se repetir num futuro ambiente de trabalho desses jovens, mas porque a gente precisa levar estudos a sério, a escola a sério, se levar a sério. É, sou brava nisso. PROFE-BRUXA.jpg

No processo de avaliação ainda considero três variáveis importantes: autoavaliação individual; avaliação da turma por si mesma e avaliação da professora (euzinha, a brava) por parte dos alunos. Essas avaliações são preferencialmente feitas oralmente, mas costumo pedir algumas linhas escritas de cada aluno, já que muitos realmente preferem expressar o que pensam – sem vergonha – nas folhas de caderno.

Bom, muitos elementos, né? Se me proponho a considerar o crescimento intelectual do aluno, preciso de muitos elementos e, claro, eles nunca serão suficientes. Procuro deixar claros os critérios, procuro deixar claro que a avaliação de conteúdo não é o peso principal, procuro – nas próprias avaliações – deixar claro o quanto elas interessam mais a mim, como professora, em buscar estratégias para solucionar problemas dos alunos do que taxar um aluno de bom, ruim, médio.

Tento, né? Só que a escola pode ser massacrante, sou apenas uma andorinha fazendo o verão. Ou não. 😉

Professora Invertida

Pensar Portugal para além da colonização

Há algo de interessante no ensino de História no Brasil: o desaparecimento de Portugal no conteúdo do ensino fundamental e médio após o estudo da independência. Eventualmente se trata da imigração de portugueses no período entre 1870 e 1930 – especialmente para o estado do Rio de Janeiro – mas nada além disso.

 

Acredito que o mais emblemático seja o como a República Velha brasileira influenciou a instauração da I República Portuguesa, mas não só. Para começar a solucionar esse furo na formação dos professores de História no Brasil, separei algumas sugestões iniciais para um mergulho bacana no Portugal contemporâneo. Espero que ajude 😉

 

Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe

Este livro narra a história de António Jorge da Silva, um barbeiro que acaba de completar maq_espan_0284 anos. Depois de perder a mulher, é entregue a um asilo. Sozinho, mas sem sucumbir ao pessimismo, num mundo cuja metafísica parece ter sido subtraída, Silva se vê obrigado a investigar novas formas de conduzir sua vida. Ele que viveu sob o peso de Salazar, nos tempos em que as ditaduras regiam tudo, coloca o passado e suas ações em perspectiva, não sem notar que o pessimismo sobre o papel do país no mundo exacerbou-se ainda mais. Portugal se transformou numa máquina geradora de sentimento de inferioridade, uma máquina especializada em produzir entre os nascidos no país a vontade de deixá-lo. (livraria cultura)

Tabu, de Miguel Gomes

Na minha singela opinião, um dos melhores filmes desta década. Fundamental para entender Portugal e seu falido império colonial do século XX. Retirei a sinopse do site O som e a Fúria.Uma idosaimage_137 temperamental, a sua empregada cabo-verdiana e uma vizinha dedicada a causas sociais partilham o andar num prédio em Lisboa. Quando a primeira morre, as outras duas passam a conhecer um episódio do seu passado: uma história de amor e crime passada numa África de filme de aventuras.

 

 

Fado Tropical, de Chico Buarque

Dúvidas sobre as relações entre Brasil e o Portugal contemporâneo? Deixa Chico Buarque de explicar uma coisinha.

 

A Revolução dos Cravos, de Lincoln Secco

Em 1974 um movimento militar de esquerda derrubou uma das mais48364941_1 reacionárias ditaduras no século XX, a portuguesa. A revolução daquele abril, a última alimentada pelo discurso socialista na Europa, ganhou rapidamente o nome de Revolução dos Cravos, graças às mulheres que distribuíam, desde o seu início, flores para os soldados. Narrando e analisando os principais eventos do processo que mudou os rumos da história de Portugal, Lincoln Secco mostra como só é possível explicar um movimento revolucionário a partir de uma perspectiva de longa duração(livraria cultura)

Equador, de Miguel Sousa Tavares

No começo do século XX, Luis Bernardo Valença, conhecido intelectual português, é convidado pelo rei Dequador_capa. Carlos a executar uma missão descabida e complicada, que implicará numa abrupta mudança de sua vida. Solteiro e perto dos quarenta anos, ele desfruta das regalias que uma cidade grande como Lisboa tem a oferecer. Aceitar o convite do rei significa abandonar tudo por uma vida nova, na qual, entretanto, poderia colocar em prática suas convicções políticas: contribuir para a efetiva abolição da escravatura na África, assumindo o papel de governador de São Tomé e Príncipe. Mais de um século depois de abolida a escravidão em Portugal, ainda sobram dúvidas se de fato os trabalhadores são empregados e bem tratados. É mesmo difícil esclarecer o limiar entre o trabalho escravo e o assalariado. Muitas vezes, sobretudo em pequenas colônias perdidas no meio da África, um homem que tem contrato assinado pode, mesmo assim, continuar a receber chicotadas de quem não sabe se deve chamar de “senhor” ou de “patrão”. Equador, primeiro romance de Miguel Sousa Tavares, publicado em 2003, trata justamente dessa complexidade política e da dificuldade de definir na prática aquilo que parece claro nos conceitos e na teoria. Mais do que isso, este livro fala das paixões humanas e de como elas interferem nos jogos de poder. (…) (livraria cultura)

Capitães de Abril, de Maria Medeiros

Este poético filme trata da história da Revolução dos Cravos, que derrubou o Estado Novo português.Capitaes-de-Abril.jpg

7512097

O pequeno livro do grande terramoto. Ensaio sobre 1755, de Rui Tavares

Rui Tavares, escritor e historiador, efetua de forma simples e objetiva uma análise ao terramoto de 1755 e o impacto que o mesmo teve, não só na vida social e cultural portuguesa, como também, e demonstrando uma grande capacidade de análise, em todo o mundo. (goodreads)

 

 

 

DICA DA SEMANA: LIA OLARIA

Lia é uma cineasta, pesquisadora, professora e produtora. Conheci seu trabalho no festival de música de Ourinhos, quando fiz uma oficina de danças tradicionais portuguesas ministrada por ela.

Seu trabalho aborda o universo das comunidades tradicionais e dos sons e sentidos das culturas locais.

Vale muito a pena conhece-la!

Página do Facebook: https://www.facebook.com/lia.marchi.39?fref=ts

Site: http://www.olariacultural.com.br/

LIA.jpg

Dica da Semana: EDSON KAYAPÓ

Edson é kayapó e militante da causa indígena.

Possui uma página no facebook onde posta interessantes reflexões sobre os direitos dos indígenas, a relação da sociedade frente a esses direitos além de mostrar os valores da vida de seu povo.

É interessantíssimo, humano e necessário.

Já preparei muita aula com as imagens e textos feitos por ele.

Super recomendo!

Segue o endereço:https://www.facebook.com/edson.kayapo?fref=ts

DICA DA SEMANA: NÃO SOU EXPOSIÇÃO

nao sou

 

Esta página feita pela nutricionista Paola Altheia  aborda questões de autoimagem e da tortura cotidiana que é a dominação de um pensamento estético único sobre o corpo (especialmente o das mulheres).

Educadores lidam com essas questões e acredito que esta seja uma boa fonte de informação/ discussão.

Site:
https://naosouexposicao.wordpress.com/

Fb: https://m.facebook.com/Naosouexposicao

Instagram: https://www.instagram.com/naosouexposicao/

‘O que vão pensar em Pernambuco?’: O professor e seus preconceitos

Estava passeando por aí quando um amigo querido compartilha um vídeo da página Pedagogia do Oprimido.

Paulo Freire, no trecho dessa aula, reflete sobre como ele percebeu em si uma reação machista e discriminatória quando um professor da Tanzania andou de mãos dadas com ele no campus universitário daquele país. A autorreflexão que ele se propõe é chave a qualquer educador. No caso, ele se perguntou se se sentiria tão incomodado se uma mulher, ao invés de um homem, lhe tivesse dado a mão daquele jeito. 

Professores e alunos são passíveis de escrotidões machistas, racistas, xenófobas, etc.. Nascemos em uma sociedade inundada de valores que reproduzem este tipo de coisa.

O que vão pensar em Pernambuco?

O que meus pais vão pensar?

O que meus amigos vão dizer de mim? 

O que Paulo Freire, na sua experiência pessoal propõe é um profundo questionamento de condicionamentos sociais.

Se fosse uma mulher a dar as mãos comigo, eu me incomodaria?

Seu eu quisesse ser engenheiro ao invés de bailarino, será que causaria o mesmo incomodo?

Se eu namorasse uma menina branca ao invés de uma negra, será que eu iria me incomodar com a opinião dos meus amigos?

São questões de ordem pessoal que revelam muito sobre nós. Na sala dos professores eu mesma já me contestei e contestei colegas propondo questões parecidas.

Será que eu reprovaria esse aluno se ele não fosse negro?

Eu acredito que a afetividade e sexualidade das meninas influem em seu rendimento escolar. Eu penso o mesmo em relação aos meninos?

Eu diria que um aluno que vai mal nos estudos vai ser tornar  prostituta ou traficante se esse mal aluno fosse de uma escola privada?

Questionamentos que podem ser incômodos ou libertadores, dependendo da abertura que se tem para mudar, para crescer, para melhorar.

 

Professora Invertida

A escuta do professor

Às vezes, mal se imagina o que pode passar a representar na vida de um aluno um simples gesto do professor. O que pode um gesto aparentemente insignificante valer como força formadora ou como contribuição à do educando por si mesmo. 
Paulo Freire em Pedagogia da Autonomia

Acredito que devemos combater a alienação do trabalho, a idéia de que faço algo apenas para receber o meu salário.  Acredito, de verdade, que esta é a armadilha da desumanização que o mercado impõe ao cotidiano no trabalhador.

Quero dizer que é possível o professor, como trabalhador, romper com esta alienação encarando o seu trabalho de uma forma diferente, como parte de uma construção maior.

Para ocorrer esta mudança, algumas estratégias de envolvimento com sua função podem ser tomadas. Uma delas, que é urgente, se trata da necessidade do professor se dispor a ouvir seus alunos. 

Não gosto muito do filme Escritores da Liberdade, especialmente pelo fato daquela professora ser colocada como salvadora, ter que se submeter a outros dois empregos para poder atender aos alunos. Não, não gosto. Mas de lá tirei uma prática que acho interessante: o diálogo do aluno com a professora através da escrita.

A professora apenas conseguir dar aula após o seu exercício de escuta que se deu através dos diários.

Há diversas maneiras de exercitar a escuta. Por exemplocostumo trabalhar conteúdos, passar as tarefas e tudo. Abro, quase sempre, rodas de conversa e é nesta hora que o aluno, amparado pelo professor, pode contar suas experiências ao refletir sobre o conteúdo de aula.

O tema da aula pode ser Revolução Francesa, Cabanagem, Império Romano ou qualquer outra coisa. Os alunos acham espaço para partilhar suas opiniões pessoais, histórias de vida e causos em consonância com o conteúdo.

Veja, não quero dizer que esta conversa é boa para que o aluno absorva o conteúdo aprendido. Quero dizer que isso modifica a maneira que o professor é visto pelo aluno, modifica a maneira como a sala irá se ver como comunidade, traz significado cotidiano escolar que em si é maçante e quase sempre sem sentido.

 

Professora Invertida