Escola e afetividade das meninas negras

Estava lendo um texto da blogueira Stephanie Ribeiro sobre sua transição capilar:

A escola nunca foi um ambiente feliz para mim, mesmo com 7 anos eu escutava as piadinhas — Seu cabelo quando não está preso, está armado. E por isso ele ficou anos e anos preso, tanto que eu comecei a ficar com queda de cabelo bem na parte superior do meu rosto.

Stephanie é muito conhecida nas redes sociais, especialmente no facebook. É militante feminista negra e, dentro de suas reflexões, sempre expõe suas vivências pessoais e como o racismo a marcou e muitas vezes a deixou doente. Você pode discordar de alguns pontos de vista dela, mas não pode negar a força que tem os seus testemunhos para um monte de meninas negras que passam pela tortura diária do que é racismo.

A escola pode ser um lugar muito cruel. Quando ela não é ressignificada, apenas reproduz as contradições – e torturas – de nossa sociedade essencialmente desigual e excludente.

Como Stephanie, no meu trabalho procuro relatar minhas experiências pessoais – boas e ruins – que se passaram nos meus anos escolares. Por exemplo, quando aluna do ensino fundamental, eu era meio a mina zoada, pois tinha um cabelo muito armado e, muitas vezes, teimava em usá-lo solto. Era seguida na rua por colegas de escola que diziam para prender o meu cabelo, que ele era horrível, que era igual ao de preto. Sou branca, meu cabelo não é crespo (ele é mais parecido com o da Gal Costa, mas agora ando com ele curto e o volume não se destaca tanto como quando ele está comprido). Claro que a experiência foi dura,  e naquele momento, já aos 12 anos eu me peguei pensando que minhas amigas negras poderiam estar passando situações piores. E estavam passando mesmo.

Eu realmente me dei conta do tamanho no problema quando uma amiga – minha melhor amiga na época – me pediu para falar com um garoto da nossa sala. Ela gostava muito dele e queria ficar. Fui lá falar da minha amiga, agitar como dizia na década de 90 rs, e o rapazinho me virou a inesquecível afirmação:

Não quero ela, quero você. Ela é preta e você é branquinha.

Bom, eu fiquei em estado de choque ao ouvir isso. Sei lá, eu achava minha amiga linda, bacana, inteligente e vi que ela foi rejeitada por ser negra… e eu fui escolhida por ser branca, mesmo tendo um cabelo fora do padrão, armado. Meio que sai de perto, nunca mais falei com o cara e também não reproduzi a minha amiga o que ele havia dito. Foi cruel demais.

Desde então comecei a prestar atenção nesse tipo de coisa e, como professora, procuro ser ligeira para perceber o quanto as meninas negras são excluídas das possibilidades de afetividade. Claro que há exceções, mas nas exceções você também vê crueldade. Por exemplo, um aluno meu – branco – namorava uma garota negra e me relatou o quanto era zuado por isso e como – o tempo todo – os dois eram chamados de café-com-leite de maneira pejorativa.

E qual é o papel da escola diante disso? Qual é o papel do professor?

A escola muda devagar, os professores no mesmo ritmo. Quando era estudante, não lembro de nenhum professor abordar o assunto, nem no ensino médio. Hoje, acredito que pela força da lei 10639 isso se tornou pauta sim.

Não, não se faz o suficiente. Mas pelo menos saímos do não fazer nada.

 

 

Professora Invertida

Empreendedorismo, Meritocracia e a Ideologia que não incomoda

Recentemente, muitas pessoas têm se posicionado contra a divulgação de algumas ideias em escolas públicas. Em Alagoas foi aprovado um projeto liderado por deputados que querem proibir professores de expressarem ideais, principalmente se elas refletirem ideias de esquerda, como igualdade, representatividade das minorias etc. São movimentos como o Escola Sem Partido, que diz que a escola deve ser isenta de ideologias.

Ideologia pode ser definida como um sistema de ideias, algo que demonstra uma visão de mundo e projeto. Mas engana-se quem acha que apenas a esquerda tem ideologia. O sistema capitalista também tem a sua. É firmado e reafirmado todo dia no nosso trabalho, na mídia e, óbvio, nas escolas. Movimentos como este Escola Sem Partido acreditam que os valores do capitalismo é a realidade natural. Não percebem que foi construído; acreditam que o mundo é assim e fim. Desconhecem que o status quo é também uma construção.

Um exemplo gritante para mim é esta onda de aulas de empreendedorismo nas escolas de ensino fundamental e médio. Vejam só:

Crianças recebem aulas de empreendedorismo em escola de SP Atividades incluem jogos, dinâmicas e pesquisas extraclasse. ‘Vantagens são o desenvolvimento da consciência empreendedora.’

EMPREENDEDORISMO NA ESCOLA PÚBLICA: DESPERTANDO COMPETÊNCIAS, PROMOVENDO A ESPERANÇA!

Site forma professores para ensinar empreendedorismo

Escolas dão aula de empreendedorismo e ensinam crianças a abrir empresa

Se você procurar no google o que é empreendedorismo para tentar entender porque se tornou pauta, encontrará isso aqui:

  1. disposição ou capacidade de idealizar, coordenar e realizar projetos, serviços, negócios. 2.inciativa de implementar novos negócios ou mudanças em empresas já existentes, ger. com alterações que envolvem inovação e riscos.

A lógica do empreendedorismo é a mesma da meritocracia: trabalhando duro, sendo resiliente e criativo, você pode chegar lá. Acontece que o sucesso na vida, seja lá o que isso for, depende de variáveis que nem sempre se resumem a força de vontade.

Empreendedores são pessoas bem conectada com boas amizades, experiência em outras empresas e mais capacidade organizativa que visão.

Muito da ideia de empreendedorismo vem das histórias das empresas de garagem do Vale do Silício. Homens que teriam ganhado muito dinheiro após começarem seus negócios do zero#selfmademan. Em 2014 saiu uma boa reportagem no El País desconstruindo o mito desse sucesso.

Grande parte do sucesso desses empreendedores vem de suas boas conexões e amizades, aliado à segurança financeira que possuem para poder dar saltos onde ninguém antes foi capaz de ir. A lenda do sucesso do empreendedor e da meritocracia pode ser confirmada na vivência de bem-nascidos. Mas não preciso dizer que a maior parte da população mundial não faz parte desta fatia pálida da sociedade. Ou preciso?

Sabemos que há pessoas que não são bem-nascidas e conseguem superar seus condicionamentos sociais. No entanto, isso não acontece com a maioria. Nascer em uma família com dinheiro e com boas conexões não é a regra e me recuso a pensar na sociedade levando em conta apenas as suas exceções.

Independent também analisou o processo e da idolatria em relação à lógica das startups. Em tradução livre:

o traço compartilhado mais comum entre os empresários é o acesso ao dinheiro financeiro de capital de família, herança, ou um pedigree e conexões que permitem o acesso a estabilidade financeira. Embora pareça que os empresários tendem a ter uma propensão para o risco admirável, normalmente é que o acesso ao dinheiro que lhes permite assumir riscos.

Veja a complicação… Empreendedorismo sendo ensinado em escolas, muitas públicas. Um conceito banhado na ideologia capitalista da igualdade de oportunidades, que na verdade não existe. E criticam meu trabalho que busca igualdade de oportunidades, me xingando de marxista? Só lamento.

Seguimos.

Professora Invertida