Escravidão e o apagamento das origens

Peças publicitárias podem ser utilizadas em sala de aula. Na verdade, devem. Acredito que isso deveria ser feito desde cedo, já que os signos da publicidade inundam nossa vida desde o momento que passamos a entender o mundo.

Neste post vou discutir uma peça que ano passado causou o que a imprensa chama de polêmica mas eu chamo de debate.

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Para quem não acompanhou, segue o link da reportagem da Revista Exame sobre o tema.

Campanha da Justiça sobre xenofobia causa revolta nas redes

A questão fundamental desta peça da campanha seria a confusão entre o processo de imigração e o tráfico negreiro. Ora, não precisa ser um profundo conhecedor da história do Brasil para saber que a escravidão por aqui é fundamentada no sequestro de pessoas da África. Não é imigração. A imigração pressupõe a vontade, liberdade de escolha.

Para além disso, existe outra questão muito sensível que a campanha fez questão de embaralhar: o apagamento das origens daqueles que foram escravizados. 

Veja bem, eu sou uma mulher branca, moradora de São Paulo. Descendo de portugueses, italianos e espanhóis. Todos vieram na onda da imigração que ocorreu no Brasil entre os anos de 1870 e 1930, e que marcou a substituição da mão de obra negra pela mão de obra branca. Pessoas em busca de oportunidades pegaram suas coisas, entraram num navio e vieram. Se eu quisesse saber a data da sua chegada, com quem vieram e mesmo o nome do navio que os transportou, bastaria eu ir até o Museu da Imigração e solicitar uma certidão. Meus avós e bisavós vieram com seus nomes, documentos e história. Puderam conviver com sua família, filhos, primos e comunidade. Puderam reproduzir sua cultura mesmo estando longe do país de origem. Tiveram seus ritos religiosos respeitados. Foram trabalhadores rurais e depois urbanos mal pagos e explorados, mas a memória de suas origens nunca foi uma questão.

Este relato da minha origem quase nenhum descendente dos seres humanos que foram escravizados no Brasil pode estabelecer. Não faz sentido a campanha do Ministério da Justiça devido a isso.

Sabe, não foi algo que aprendi através da pseudo-polêmica da campanha, foi algo que me dei conta ao conversar com uma colega de trabalho e também amiga, a Professora Janaina Monteiro. Num papo informal acabei falando algo sobre como é fácil tirar essas certidões que podemos tirar no Museu da Imigração e ela simplesmente (e ironicamente) riu. Esse riso dela me fez  perceber o quão pode ser difícil para descendentes de negros escravizados conhecer suas origens ou se sentir representado nessa construção do imaginário da imigração no Brasil. Por isso, cada vez que trato do tema em minhas aulas, essa reflexão entra obrigatoriamente na discussão com os alunos.

Publicitários não são historiadores. Mas abordar o tema das origens étnicas dos escravos brasileiros deveria ter sido alvo de pesquisa e reflexão antes de se aprovar qualquer coisa.

 

Professora Invertida

 

Pensar Portugal para além da colonização

Há algo de interessante no ensino de História no Brasil: o desaparecimento de Portugal no conteúdo do ensino fundamental e médio após o estudo da independência. Eventualmente se trata da imigração de portugueses no período entre 1870 e 1930 – especialmente para o estado do Rio de Janeiro – mas nada além disso.

 

Acredito que o mais emblemático seja o como a República Velha brasileira influenciou a instauração da I República Portuguesa, mas não só. Para começar a solucionar esse furo na formação dos professores de História no Brasil, separei algumas sugestões iniciais para um mergulho bacana no Portugal contemporâneo. Espero que ajude 😉

 

Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe

Este livro narra a história de António Jorge da Silva, um barbeiro que acaba de completar maq_espan_0284 anos. Depois de perder a mulher, é entregue a um asilo. Sozinho, mas sem sucumbir ao pessimismo, num mundo cuja metafísica parece ter sido subtraída, Silva se vê obrigado a investigar novas formas de conduzir sua vida. Ele que viveu sob o peso de Salazar, nos tempos em que as ditaduras regiam tudo, coloca o passado e suas ações em perspectiva, não sem notar que o pessimismo sobre o papel do país no mundo exacerbou-se ainda mais. Portugal se transformou numa máquina geradora de sentimento de inferioridade, uma máquina especializada em produzir entre os nascidos no país a vontade de deixá-lo. (livraria cultura)

Tabu, de Miguel Gomes

Na minha singela opinião, um dos melhores filmes desta década. Fundamental para entender Portugal e seu falido império colonial do século XX. Retirei a sinopse do site O som e a Fúria.Uma idosaimage_137 temperamental, a sua empregada cabo-verdiana e uma vizinha dedicada a causas sociais partilham o andar num prédio em Lisboa. Quando a primeira morre, as outras duas passam a conhecer um episódio do seu passado: uma história de amor e crime passada numa África de filme de aventuras.

 

 

Fado Tropical, de Chico Buarque

Dúvidas sobre as relações entre Brasil e o Portugal contemporâneo? Deixa Chico Buarque de explicar uma coisinha.

 

A Revolução dos Cravos, de Lincoln Secco

Em 1974 um movimento militar de esquerda derrubou uma das mais48364941_1 reacionárias ditaduras no século XX, a portuguesa. A revolução daquele abril, a última alimentada pelo discurso socialista na Europa, ganhou rapidamente o nome de Revolução dos Cravos, graças às mulheres que distribuíam, desde o seu início, flores para os soldados. Narrando e analisando os principais eventos do processo que mudou os rumos da história de Portugal, Lincoln Secco mostra como só é possível explicar um movimento revolucionário a partir de uma perspectiva de longa duração(livraria cultura)

Equador, de Miguel Sousa Tavares

No começo do século XX, Luis Bernardo Valença, conhecido intelectual português, é convidado pelo rei Dequador_capa. Carlos a executar uma missão descabida e complicada, que implicará numa abrupta mudança de sua vida. Solteiro e perto dos quarenta anos, ele desfruta das regalias que uma cidade grande como Lisboa tem a oferecer. Aceitar o convite do rei significa abandonar tudo por uma vida nova, na qual, entretanto, poderia colocar em prática suas convicções políticas: contribuir para a efetiva abolição da escravatura na África, assumindo o papel de governador de São Tomé e Príncipe. Mais de um século depois de abolida a escravidão em Portugal, ainda sobram dúvidas se de fato os trabalhadores são empregados e bem tratados. É mesmo difícil esclarecer o limiar entre o trabalho escravo e o assalariado. Muitas vezes, sobretudo em pequenas colônias perdidas no meio da África, um homem que tem contrato assinado pode, mesmo assim, continuar a receber chicotadas de quem não sabe se deve chamar de “senhor” ou de “patrão”. Equador, primeiro romance de Miguel Sousa Tavares, publicado em 2003, trata justamente dessa complexidade política e da dificuldade de definir na prática aquilo que parece claro nos conceitos e na teoria. Mais do que isso, este livro fala das paixões humanas e de como elas interferem nos jogos de poder. (…) (livraria cultura)

Capitães de Abril, de Maria Medeiros

Este poético filme trata da história da Revolução dos Cravos, que derrubou o Estado Novo português.Capitaes-de-Abril.jpg

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O pequeno livro do grande terramoto. Ensaio sobre 1755, de Rui Tavares

Rui Tavares, escritor e historiador, efetua de forma simples e objetiva uma análise ao terramoto de 1755 e o impacto que o mesmo teve, não só na vida social e cultural portuguesa, como também, e demonstrando uma grande capacidade de análise, em todo o mundo. (goodreads)