Pobrezinha, estudou tanto…

Não sei quanto a vocês, mas há anos eu escuto uma ladainha muito chata. Essa ladainha me diz, repete e grita para mim que apesar dos meus anos de estudo, apesar da minha ‘inteligência’, eu ganho mal, continuo ganhando mal, não tenho nada, enquanto que pessoas que não estudaram, nossa, estão rykhas, indo para Miami, comprando apartamentos construídos pela Cyrela. Não ouço isso apenas de familiares, também ouço isso de colegas de trabalho – mesmo antes de me tornar professora.

Olha, eu acredito que esta seja uma questão mais complexa do que aparenta e não se relaciona apenas com a minhaunivesitarios-1440x764_c jornada pessoal de formação intelectual, mas com valores éticos, demanda mercado de trabalho e educação como produto de venda.

Um exemplo legal: Tem um pedreiro, o seu João, que fez alguns serviços na casa da minha mãe. Ele, sem curso superior, facilmente ganha muito, mas muito mais do que eu, que sou professora. Isso é necessariamente ruim? Não! Aliás, em países do norte da Europa, como Noruega e Suécia, isso é uma realidade há tempos: lixeiros, pedreiros, marceneiros ganham muito bem, possuem salários mais do que dignos. Agora, o massa do seu João é que agora, perto dos 50 anos, está no segundo ano de engenharia numa faculdade privada. Mesmo ganhando bem, ele vai matar duas coisas: realizar o sonho de ter curso superior e poder liderar o projeto das obras como engenheiro responsável, ou seja, possivelmente – como profissional qualificado que ele já é – irá aumentar ainda mais a sua renda.

Agora veja a carreira docente. A não ser que você lecione em escolas de elite ou tenha muitos anos de carreira na escola pública (mais de 10 anos, pelo menos), mesmo com cursos, pós-graduações, línguas estrangeiras, descobertas científicas, prêmios nobel, etc.. o seu salário não irá ser maior do que a de um engenheiro em início de carreira.

A injustiça não está em um pedreiro como o seu João ganhar mais do que uma professora como eu. A injustiça está na decisão política de se desvalorizar a carreira docente que é, no fundo, a desvalorização da educação como projeto político de formação das gerações que irão construir o mundo dos filhos e netos meus e do Seu João.

 Professora Invertida