Na reunião de pais dizendo os que os pais não querem ouvir

Sou professora de história da rede pública municipal de São Paulo. Atuo há um pouco mais de 5 anos e, por conta de variáveis inerentes à carreira, nem sempre tenho aulas atribuídas. Isso quer dizer que na maior parte das vezes ocupo o cargo de professora substituta. Quando não substituo aulas, acompanho o trabalho dos meus colegas. Claro, na maior parte das vezes estou com meu colega de área, mas também gosto de voar nas aulas de colegas de outras disciplinas. Como consequência disso, ando adquirindo profundo conhecimento entre a relação de conteúdos, dificuldades dos alunos, violência escolar e trabalho de recuperação paralela, entre outros.

Uma coisa bacana que ocorre onde trabalho é que professor que não possui aulas atribuídas não é tratado como professor de segunda categoria. Tenho voz nas reuniões de conselho de escola, conselho de classe e muitas vezes conduzi sozinha reunião com os pais. Isto denota respeito ao profissional e entendimento que qualquer professor precisa conhecer as turmas e ser capaz de discutir os casos com os responsáveis.

Vou falar de uma das reuniões de pais (avós, irmãos, vizinhos, tios ou quem quer que seja o adulto responsável pelo estudante) que conduzi.

Normalmente meus colegas iniciam reuniões com uma pauta inicial composta, claro, por assuntos burocráticos. No meio dessa pauta, dizemos a todos os pais como a sala se porta. Normalmente essa é a hora da bronca coletiva: alunos não estudam; conversam demais; bagunçam; não saem do celular; etc..

É claro que eu eventualmente dou a minha bronca…. só que também procuro trazer minha reflexão de professora de rede pública que, um dia, também foi aluna de rede pública. Da mesma rede, aliás. E é aí que o bicho pega.

Sabe, fui uma aluna falante, fui mandada à diretoria, tive amigos, fiz bagunça. Gostava de estudar, adorava a tv cultura, jogar xadrez e ler. Muitos que me conheceram quando criança – inclusive pessoas que estudaram comigo no ensino fundamental – falavam que eu era inteligente, mais inteligente que eles. Eu nunca achei isso. Sempre pude pontuar diversos colegas que era geniais e que acabaram não se encontrando nos estudos.

Qual foi a grande diferença? Por que essa peja de inteligente me incomodava tanto? Por que o discurso meritocrático não me convenceu já naquele tempo?

Bom, são perguntas de múltiplas respostas. Vou expor agora uma delas. E essa resposta eu compartilhei com os pais dos meus alunos e, confesso, esses pais não gostaram muito do que ouviram.

O meu gostar de estudar foi muito influenciado por ter visto meus pais retomarem os estudos. Era criança e algumas vezes fui à escola dos meus pais. Hoje é EJA, na época era Supletivo mesmo. Meu pai concluiu o ensino fundamental e médio, minha mãe o ensino médio.

Eu os via em grupos de estudo, lendo no ônibus, fazendo exercícios em casa.

Meus pais nunca me incentivaram a estudar – eles tinham o discurso que isso era minha obrigação, rs -, nunca conferiram meu caderno para ver se eu tinha copiado tudo. Mas ver os meus pais estudando me levou automaticamente a considerar o estudo importante.

E por que você acha que os pais dos meus alunos não gostaram deste meu relato?

Eu, por exemplo, chuto… Acabei com a lenda de que gostar de estudar é algo para escolhidos, privilegiados, pessoas inteligentes, bissextas, exceções. Gostar de estudar tem mais a ver, sim, com interesse, com cultura, com hábito, com necessidade, com cotidiano.

Professora Invertida