Eu queria que minha professora soubesse…

Reportagem fala de uma professora que deu voz aos alunos, a oportunidade deles dizerem quem eles são. Ficamos sabendo porque a professora em questão tirou fotos dos bilhetes e publicou na sua conta do twitter.

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Eu queria que minha professora soubesse que eu não tenho amigo para brincar comigo.

Conhecer o aluno e suas necessidades está além de saber o que ele consegue aprender, sua velocidade, seu rendimento. Lidamos com pessoas, o processo de aprendizagem é um processo de escuta e vida em comum. Não dá para o professor ir para a escola, dar a aula e voltar pra casa. Somos seres humanos e lidamos com seres humanos providos de histórias, vivências.

Eu não tenho nenhuma foto aqui, porque sempre devolvo aos alunos seus trabalhos, mas tenho uma estratégia para este tipo de escuta.

Sempre na primeira vez que entro numa sala, faço a dinâmica das apresentações. Primeiro digo quem sou, quantos anos tenho, onde me formei e porque escolhi ser professora de História. Depois peço para cada aluno se apresentar, dizer nome, idade e a matéria que mais gosta.

No segundo momento, digo a eles que quero que me escrevam uma carta. Nesta carta eles devem escrever o que gostariam que eu soubesse deles.

É massa, muitas vezes eles dizem coisas simples como não gosto de jiló, odeio meu irmão ou odeio história. Só que, como aconteceu com minha colega de profissão da Inglaterra, muitos abrem situações que nos fazem entender melhor quem é aquela pessoa que está lá no papel de aluno: eu só como quando estou na escola, não gosto de sair da escola porque em casa não tenho nada para fazer, meu pai está preso, minha família toda está na Bolívia e sinto falta deles, meu pai está voltando do Japão e estou feliz.  

De cabeça me lembro desses relatos. Acontece que também tenho a prática de responder a carta. No próprio papel, no verso. De maneira informal e sem notas. Então eles ficam sabendo que eu gosto de jiló refogado, que na idade deles eu também me dava mal com minhas irmãs, que eu sempre gostei de estudar História. Também ficam sabendo que eu sei o que é não morar perto de equipamentos de lazer quando se é criança e a solidão que isto pode causar, que fico feliz que o pai do aluno está voltando de uma longa jornada fora do país, que sinto pela tristeza de ter um pai preso, que sinto pela saudade de quem tem suas origens fora do Brasil e por isso às vezes se sentem deslocados e que vou ajudar de alguma forma a uma criança que tem acesso à alimentação regular apenas na escola.

Eu escrevo para eles, respondo, falo também das minhas experiências, deixo claro que os entendo. E se não for capaz de entender, estarei ao lado deles.

Não se trata de algo bonito, cheio de arco-íris, de alguém iluminado, madre teresa de calcutá… É trabalho consciente. Ser professor é muito além do que transmitir conteúdos, é também se importar.

 

Professora Invertida